← Blog
Geral · 27 de julho de 2026

Toda história começa antes

Por que escolhi enxergar pessoas antes de processos: uma reflexão sobre herança, memória e o sentido mais profundo do Direito.


Toda história começa antes

Sabe, sempre me intrigou a ideia de que existe algo que permanece intacto, mesmo quando tudo muda. Os filósofos chamam isso de quintessência.

Quando olho pra minha mãe, penso na vó Dina, ou me recordo de poucas informações sobre a minha vó Ana, percebo que, curiosamente, quanto menos respostas encontro na história delas, mais perguntas encontro sobre mim. O mesmo ocorre quando me lembro do meu saudoso pai, o delegado de polícia Pedro Castelões, minha maior inspiração para estudar o Direito.

Sinto que a minha identidade mais profunda não começou com meu nascimento, nem na minha infância, nem na cultura em que fui criada, mas precede tudo isso. Acredito que certas respostas não precisam ser aprendidas pela primeira vez. Elas parecem apenas esperar o momento certo em que estaremos prontos para lembrá-las.

Penso que encontramos essa memória espiritual quando descobrimos o que nos traz paz, contentamento, liberdade de sentir e de comunicar, quando estamos prontos para servir; e quando a encontramos, conseguimos extrair beleza de todas as coisas e sabedoria de todas as experiências vividas por nós e pelas nossas mães, e avós e ancestrais.

Hoje, acredito que sou fruto de tudo que meus pais e os pais deles viveram antes de mim. E essa herança não se perdeu, ela ainda está marcada nos livros da minha alma.

Antes de enxergar processos, aprendi a enxergar pessoas

É por tudo isso que, antes de enxergar processos, aprendi a enxergar pessoas. Antes de estudar leis, aprendi que toda história carrega marcas invisíveis de muitas outras histórias que vieram antes dela. É que o Direito não existe separado da vida.

As leis regulam relações humanas, e relações humanas são feitas de histórias. Histórias de famílias, de amores, de empresas construídas ao longo de décadas, de patrimônios que representam muito mais do que bens materiais, de perdas, de recomeços e de escolhas.

É dessa forma que escolhi exercer a advocacia: acreditando que proteger um patrimônio, preservar uma família, resolver um conflito ou restabelecer um direito é, muitas vezes, ajudar alguém a recuperar uma parte da própria história.

O que o Direito deveria proteger

Se a quintessência é aquilo que permanece quando todas as camadas superficiais desaparecem, o Direito, no seu melhor sentido, deveria existir para proteger justamente aquilo que é essencial: a dignidade, a palavra, a família, a liberdade, a memória, o patrimônio construído ao longo da vida e a possibilidade de recomeçar.


Conteúdo de caráter geral e informativo, nos termos do Provimento nº 205/2021 do Conselho Federal da OAB. Não constitui consulta jurídica nem substitui a análise individualizada por profissional habilitado.